10/12/2018

As aves somos nozes

Festa das raposas

Foi uma semana punk.

Houve o anúncio, por parte do futuro governo, da fusão entre a Secretaria de Políticas para as Mulheres e o Ministério dos Direitos Humanos. E a nomeação, para a pasta, de uma pastora que diz que o país vive uma “ditadura gay”, que “a mulher nasceu para ser mãe” e que “chegou o momento de a igreja ocupar a nação”.

Houve também o estranho momento protagonizado pelo ministro Ricardo Lewandowski, que ameaçou dar voz de prisão a um cidadão que o abordou para expressar seu descontentamento com o STF – que apesar de ser a mais alta corte do país, não está imune a críticas (e nem a aumentos salariais).

E houve, como escreveu a editora Raquel Cozer, “a treta do WhatAapp do PSL, que foi armada para desviar a atenção da ministra dos Direitos Humanos, que foi indicada pra tirar o foco da história do Coaf com a futura primeira-família, que foi vazada para abafar a décima temporada da delação do Palocci, não necessariamente nessa ordem”.

A única coisa que não havia ocorrido era a nomeação do futuro ministro do Meio Ambiente. E dado que o Brasil tem a maior floresta tropical do planeta, não era exagero dizer que o mundo inteiro estava ansioso para saber quem seria o escolhido.

Durante a campanha, o então candidato Jair Bolsonaro falou diversas vezes em acabar com o ministério. Sua ideia era passar as atribuições da pasta para a Agricultura, deixando o agronegócio cuidar da ecologia – ou, em português claro, a raposa tomar conta do galinheiro

Eleito, Bolsonaro recuou, pero sin perder la cavalgadura jamás. Na tarde de ontem, seu ministro foi finalmente anunciado. Trata-se do advogado Ricardo Salles, ex-diretor da Sociedade Rural Brasileira, ex-secretário do Meio Ambiente do governo Alckmin (foi afastado um ano depois de nomeado), e ex-candidato, pelo Novo, a deputado federal (seu material visual, durante a campanha, defendia o uso de bala contra a praga do javali, a esquerda e o MST).

“Derrotado nas urnas, Ricardo Salles ganhou como prêmio de consolação o cargo mais importante de sua vida”, escreveu o jornalista André Trigueiro, lembrando que seu nome “nunca foi lembrado no meio ambientalista”. Para chegar tão alto, Salles contou com o apoio da União da Agroindústria Canavieira, da Fiesp e da construção civil – setores não necessariamente afeitos às bandeiras ecológicas. Em uma de suas primeiras entrevistas, usou o termo “inócuo” para se referir ao debate sobre aquecimento global.

Em nota divulgada ontem, o Greenpeace declarou que “a principal função do novo ministro será a promoção de uma verdadeira agenda antiambiental, colocando em prática medidas que vão resultar na explosão do desmatamento na Amazônia.” O Observatório do Clima apontou que Salles “será um ajudante de ordens da ministra da Agricultura”, e alertou: “O ruralismo ideológico, assim, compromete o agronegócio moderno – que vai pagar o preço quando mercados se fecharem para nossas commodities.”

Hoje, apesar de já ter um dos menores orçamentos da Esplanada, o ministério do Meio Ambiente abriga o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), duas das principais autarquias responsáveis pela fiscalização ambiental.

Diminuir a importância do ministério será uma derrota para ativistas e biólogos que lutam para manter o pouco que nos resta de diversidade ecológica. Será uma derrota para o país, que ainda ocupa um lugar de importância no debate ambiental. Em última instância, será uma derrota para o planeta.

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